quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lançamento do livro Voz Perdida, de Isa Mestre


Acabo de lançar, com a chancela do Sítio do Livro, a obra Voz Perdida. Voz Perdida trata-se de um conjunto de micro-narrativas romanceadas, em prosa, ao estilo do que tenho produzido até aqui nas minhas participações no blogue e no grupo literário Texto-Al.
O livro encontra-se disponível para venda através do site : http://www.sitiodolivro.pt/pt/livro/voz-perdida/9789899663206 ou contactando-me pelo email ou telefone.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Enkeli

[Para ti que existes dentro deste poema]

De onde veio? Não sei. Sei que te amo e isso basta.
Irei amar-te sempre. Mesmo que o coração me doa.
Nunca saberei de onde veio. Talvez nunca queira realmente saber.
Adoro-te e quando te abraço não preciso de palavras para o dizer.

Fomos demasiado frágeis e isso denunciou-nos.
Eu e tu. Apenas nós.
Repetindo-nos. Olhando-nos ao espelho. Revendo-nos nos olhares tristes.
Repetindo-nos. Descobrindo palavras nas entrelinhas.
Eu e tu. Apenas nós.
Irascíveis. Transparentes. Corações em aberto.
Repetindo-nos. Repetindo-te.
Adoro-te. E às vezes isso basta.

Isa Mestre

sábado, 19 de dezembro de 2009

A segundos de ti

[para ti, que me acalmas a dor por pareceres tão perto quando te escrevo]

O rosto terno, as palavras breves,
A doçura daquele Natal.
O teu último.

E nós tão felizes,
tão ridículos,
nós sem saber,
[porque ninguém sabe],
[porque ainda ninguém pode saber],
que aquele seria o último,
o teu último.

E tu com o cabelo por pintar a pedir-me que não tirasse fotografias,
E eu sorria,
Num flash que era ao mesmo tempo toda a luz e todo o amor que sentia por ti.
Num flash que hoje me devolve o medo,
A solidão.
A certeza de que somos tão incertos, tão voláteis.
A certeza de que nunca saberei quando será o último.
O meu último.

Isa Mestre

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Perdut

[ a todos os que perderam o que jamais se pode encontrar]

É isto o que existe entre mim e a morte.
Essencialmente nada.
Uma sombra. Uma solidão triste e vadia, às vezes feroz.

Gosto de acreditar que me vês.
Nesta solidão. Triste. Vadia. Às vezes feroz.
Nesta solidão que é o medo, que é a fome,
que é a luta de todos aqueles que não sabem por que lutar.

Gosto de acreditar que um dia todos saberemos por que lutar.

Existirás entre mim e a morte?
Entre mim e as coisas que amo?
Entre mim e o medo?
Ou simplesmente entre mim e o frio desta madrugada escura em que me pergunto:
Porque não estás?
Enquanto os punhos se cerram de raiva por uma perda que, por momentos, deixa de ser só minha para ser tua também. Do mundo inteiro.

Isa Mestre

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Fugidios

Os dedos fogem-me do teclado,
Chamam-me ridícula,
Atrapalham-se trôpegos na tarefa de chegar a ti.

Os dedos outrora inertes,
Agora vivos, agora meus,
Nossos.
De toda a gente.

Os dedos que não escrevem,
Mas é como se escrevessem.
Os dedos que não amam,
Mas são sempre tão naturais como quem ama.

Os dedos gastos de mentiras e cinismos profundos,
Os dedos fartos de sorrisos de plástico e corações de esferovite,
Os dedos a dizer,
- Gosto de ti.

Estes mesmos dedos que quiseram ligar-te agora mesmo para dizer:
- Tenho saudades tuas.
(Os dedos ridículos da segunda frase).

Isa Mestre

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Pragmática do Silêncio

[Para ti, porque és tu que existes nos meus vazios. tantas e tantas vezes]

Para escrever-te não preciso de quase nada.
Basta-me entender que és essencialmente o vazio.
Entender que, tal como as casas,
Também nós nos vamos construindo.

E os tijolos pesados, tantas vezes.

Os tijolos a ferir-nos as mãos,
Os tijolos a cair nos pés como grilhetas,
Os tijolos como palavras atiradas para o meio do caminho,

Os tijolos. Pesados.
Como as palavras.
Tantas vezes dispensáveis, tantas vezes inúteis.
Como quando apareceste.
As palavras a fugir-me por entre os dedos das mãos,
A deambular na inocência de um olhar que se perde, que se perde sempre.

E da vida, ficam apenas os vazios.
Os espaços onde nenhuma palavra consegue entrar.
Os espaço onde nenhuma palavra poderia entrar.

- Mesmo que quisesse?
- Mesmo que quisesse.

Isa Mestre

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ad eternum

Queria que este poema fosse para ti.
Mesmo que não o ouvisses,
Mesmo que não pudesses lê-lo,
Mesmo que a escuridão e o medo te fizessem esquecer quem sou.
Queria que este poema fosse para ti.
Mesmo que as palavras estivessem gastas e que os gestos se cansassem de sorrir,
Mesmo que fizesse frio e a solidão te gelasse os sentidos.
Queria que este poema fosse para ti.
Mesmo que eu já não estivesse.
Mesmo que te escrevesse de qualquer outro lugar. Mesmo que te sorrisse. Mesmo que te amasse sem nunca te poder amar.

Isa Mestre
 
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